Oscar Wilde e o supremo pecado da superficialidade

Um homem muito inteligente que viveu todas as delícias e infelicidades do sucesso. Antiburguês, marido, pai, homossexual, Oscar Wilde, consegue criar personagens tão hipócritas, tão vaidosos e tão apaixonantes.
Ele é minha companhia nestes últimos dias. Conta-me as suas memórias do cárcere na obra póstuma De Profundis.  Wilde foi preso por cometer “atos imorais” com os rapazes. Ele preferia chamar de “amor que não ousa dizer o nome“. De Profundis foi escrita na prisão em forma de epístola para Lord Alfred Douglas com quem Wilde manteve um romance.

Comecei minha releitura deste livro depois de algumas conversas sobre relações destrutivas e cheias de consentido sofrimento.
Alguns trechos transcrevo abaixo.

“Lembre-se que há uma grande diferença entre aqueles a quem os deuses julgam tolo e aquele que parece tolo aos olhos dos homens. É possível ignorar inteiramente todas as formas que a arte pode assumir em suas diversas manifestações ou os processos de evolução do pensamento, o esplendor de um verso latino, a musicalidade tão cheia de vogais do idioma grego, da escultura toscana ou da canção elizabetana e ainda assim estar cheio da mais doce sabedoria. O verdadeiro tolo, de quem os deuses zombam e a quem tentam destruir, é aquele que não conhece a si próprio. Durante muito tempo eu fui um deles. Você também: deixe de sê-lo. Não tenha medo. O supremo pecado é a superficialidade. Tudo que é realizado é certo.”

“Começarei por dizer-lhe que me julgo terrivelmente culpado. Aqui na minha cela escura, envergando este uniforme de prisioneiro, um homem desgraçado e totalmente arruinado, eu me julgo culpado. Nas agitadas noites cheias de angústia, nos longos e monótonos dias cheios de sofrimento, é a mim que eu culpo. Culpo a mim mesmo por ter permitido que uma amizade que nada tinha de intelectual, uma amizade cujo objetivo principal jamais foi a criação ou a contemplação de belo, dominasse inteiramente a minha vida.”

“Você me venceu pelo cansaço. Foi o triunfo de uma natureza menor sobre uma maior, um caso típico de ditadura do mais fraco sobre o mais forte, que eu descrevo em uma de minhas peças como sendo ‘a única ditadura capaz de manter-se’.”

“Cometera um gigantesco erro psicológico ao pensar que o fato de submeter-me a você nas pequenas coisas não significasse nada, pois quando o  grande momento enfim chegasse eu seria capaz de reafirmar minha vontade graças à minha natural superioridade. Mas não foi isso que aconteceu: quando o grande momento chegou minha vontade havia me abandonado. Na verdade na vida não há coisas grandes ou pequenas: todas têm o mesmo valor e o mesmo tamanho.”

“Três meses depois, em setembro, novas cenas provocadas pelo fato de eu ter apontado os erros dignos de um escolar que você havia cometido ao tentar traduzir Salomé. É provável que agora já conheça francês o bastante para saber que aquela tradução era tão indigna de um egresso de Oxford quanto da obra que procurava traduzir. Mas é claro que naquela época ainda não sabia disso e, numa das violentas cartas que me escreveu sobre o assunto, chegou a afirmar que não tinha qualquer tipo de compromisso intelectual comigo: lembro-me que ao ler essa declaração senti que aquela tinha sido a única coisa verdadeira que já me havia escrito durante todo o tempo que durava nossa amizade. Percebi também que teria sido mais feliz se possuísse um espírito menos cultivado. E não digo isso com rancor, mas por simples companheirismo. Basicamente o diálogo é o único instrumento capaz de unir duas pessoas, seja no casamento ou na amizade. Mas para que haja diálogo, é necessário que existam interesses em comum. E entre duas pessoas de nível cultural totalmente diverso, o único interesse comum possível só pode existir ao nível mais baixo. A simplicidade de pensamentos e ações pode ser encantadora. Eu fiz dela a base de uma brilhante filosofia, expressa em peças e paradoxos. Mas a frivolidade e a insensatez da nossa vida tornavam-se muitas vezes cansativas para mim: nós só nos encontrávamos em meio à lama, e embora o único assunto em torno do qual invariavelmente girasse a sua conversa pudesse ser terrivelmente fascinante, ele acabou por tronar-se bastante monótono para mim.”

“Os deuses são estranhos: não apenas dos nossos erros que eles se utilizam como instrumentos para atormentar-nos, mas levam-nos à ruína através daquilo que temos de bom, gentil, compassivo e terno. Não fosse a piedade e a afeição que senti por você e os seus, não estaria agora chorando neste lugar horrível.”

“Durante seus breves anos de vida, que se assemelharam à vida de uma flor, seu irmão Francis tentou, com bondade e doçura, compensá-la por tudo que ela havia sofrido (Wilde refere-se aqui a mãe de Lord Douglas). Você devia tê-lo tomado como modelo. Errou até mesmo ao imaginar que ela ficaria absolutamente deliciada e feliz se você tivesse conseguido mandar seu pai para a prisão por meu intermédio. Tenho certeza de que estava errado. E se você quiser saber o que uma  mulher realmente sente ao ver seu marido e o pai de seus filhos metido num uniforme presidiário, dentro de uma cela, escreva à minha mulher e ela lhe dirá. Pensei que a vida seria uma comédia brilhante e que você seria um dos seus amáveis protagonistas. Descobri que não passava de uma chocante e desagradável tragédia e que a sinistra causa da grande catástrofe, sinistra pela concentração de seus desígnios e pela intensidade da limitada força de vontade, era você mesmo, despojado daquela máscara de alegria e prazer que nos havia enganado a ambos e graças à qual nos havíamos desviado do caminho.”

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Sobre vivibezerra

Alta. Cachos. Andar saltitante. Interessada num monte de vida.

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