Escrito inútil para a humanidade

“O homem se tornou possuidor de um conhecimento científico infinitamente superior a todo o conhecimento acumulado pelo passado. Revelou-se a fragilidade da educação: os saberes e a ciência não produzem nem sabedoria nem bondade.”

Dá dó de pensar que o Rubem Alves acertou em cheio.

Acredito que em detrimento da bondade e da sabedoria, ganhamos muitas tecnologias, novas formas de viver com mais conforto, de prolongar a vida, de comer em restaurantes finos, vestir tecidos maravilhosos, super gostosos. Em detrimento de agir com honradez e respeito, ganhamos nossos seguidores, nossas granas, nossos poderes para nos ancorar. Em detrimento de uma consciência plena e em paz, asseguramos inúmeras conquistas, subjugamos países, espalhamos pelo mundo nossa cultura, nosso futebol, nossa mulata, nosso samba, nossa cachaça, nosso jeitinho. Em detrimento de toda esta potência de criatividade, construímos imagens pobres, bobas, descartamos nossos traços mais marcantes, expomos nossas posses, empacotamo-nos. Em detrimento do puro e simples erro, criamos uma teia de mentiras, subterfúgios, arrogâncias, invencionices, malandragens. Em detrimento do deixar doer, temos o jogo de futebol, o sexo, o video game, a bebidinha, o novo santo, o remédio.

Rubem Alves ainda cita Camus: “Esperança é quando sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração.”

Em detrimento da esperança, nos agarramos ao conforto material, nos protegemos na ignorância e lutamos pelo direito de permanecermos inertes. Em detrimento do que nos faz borbulhar, arrotamos modernices, alimentamos auto boicotes, fugimos de profundezas, de laços, de palavras, da velhice, da intensidade, do misterioso.

No entanto, somos tão corajosos e fortes  por estarmos aqui. Tanta coisa já se foi, tanto já mudou, e nós estamos aqui. Belos e feios. Com os danos, os prejuízos, as loucuras, o tédio, a ansiedade, a busca, a fatalidade, os retornos, a revolta, a partilha, as curvas, o desdém, o artifício, as crenças, as heranças, as aventuras, as incompletudes, a liberdade. A Monja Coen tem um lindo texto que começa assim:

Chegamos aqui.
Entre mortos, mortas,
feridos e feridas,
chegamos aqui.
Houve tsunamis,
terremotos, guerras, acidentes, vulcões,
erupções, ventos, ciclones. Muitas
pessoas foram levadas, arrastadas,
engolidas, desaparecidas.
Nós ficamos.
Estamos aqui.
Continuamos a caminhada.
Com tropeços, com feridas, mancando e
nos arrastando – chegamos aqui.
Há os mais fortes e destemidos, que
saltaram os obstáculos, mas até quando
saltarão?
Transitoriedade.
Velhice, doença e morte.

Tudo está acontecendo como está e não há detrimento de nada, só se trata da vida como ela é.
Mais um texto inútil para este domingo tão repleto de desvelações.

Beijos e sorte!

Até!

Vivi Bezerra

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Sobre vivibezerra

Alta. Cachos. Andar saltitante. Interessada num monte de vida.

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