dona esperança…

dona esperança mora numa favela do real parque. cata latas. seus filhos pouco dormem, pouco comem. seu marido fugiu, mas não escapou da miséria. hoje é dia dela catar na noite. lua crescente, os jovens vão mais à balada. hoje é dia de catar no morumbi. os seguranças afastam, tem hora certa pra catar. felipinho morava na mesma favela que dona esperança. “se isso acontecer de novo, você tá fora!” felipinho quase perdeu o emprego porque deixou dona esperança catar na frente dos clientes. “emprego tá difícil, ele é um bom garoto, mas parece que o dinheiro lhe subiu a cabeça”. trabalhar de noite é mais calmo e o ar é mais limpo. tudo é mais escuro e invisível. “queria um dia subir naquele prédio alto. todos os dias de manhã os pássaros despertam o vôo bem lá de cima”, dona esperança da calçada olhava sempre o mesmo prédio. fim da balada, algumas latas no chão, lixos empilhados na calçada. separa, cata, arrasta, carrega, vende. de volta, come pão e bebe café preto. a vista já é clara do sol subindo. dona esperança vai até a sua porta e, como de costume, vê o prédio de sempre tocando o mais alto do céu. os pássaros acostumados a levantar vôo sob seu olhar, aos poucos, começam a pular e a cantar e tudo recomeça. “bom dia, dona esperança”, despertando, dona esperança responde com um sorriso, “bom dia, felipinho”.

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Sobre vivibezerra

Alta. Cachos. Andar saltitante. Interessada num monte de vida.

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