Drummond, amigo, o tempo muda o amar?

Joaquim:

– Teresa, eu te amo. Vamos deixar rolar e ver como ficamos.

Teresa:

– Raimundo, eu te amo. E amo, Sérgio, Mário, Caio…

Maria:

– Joaquim, eu te amo. Mas, eu sufoco!

Lili:

– Não amo ninguém. Ninguém me merece. Ninguém presta. Ninguém é sincero.

João:

– Eu amo todo mundo. O amor é livre.

Teresa:

– Joaquim, Maria te ama.

Joaquim:

– Maria, eu te amo.

– Teresa, você é a mulher da minha vida, se quiser largo tudo por você! Eu te amo!

Maria:

– Joaquim, que felicidade! Sempre te amei!

Lili:

– Maria, o Joaquim e a Teresa tem um caso.

Teresa:

– Eu amo todo mundo. O amor é livre.

Raimundo:

– Teresa, eu amo você também.

João:

– Maria e Joaquim? Ela merece coisa melhor! Acho que amo a Maria. Estou confuso.

Maria:

– Desconfiei sempre do Joaquim. Algo aqui dentro sempre me inquietou. Não conseguia ficar em paz com ele. E a Teresa? Era minha amiga… Dupla traição!

João:

– Maria é você quem eu amo. Eu tenho certeza há tanto tempo.

Raimundo:

– Eu vou é pegar geral!

Lili:

– Maria, eu te amo. Eu penso em você em Paris, em Roma, no Vale do Anhangabaú, em Tróia, em Nárnia…

Teresa:

– Ai, que culpa! Ai, que culpa! Agora acabou tudo, eu juro! Espera… É ele! Que se dane o mundo! É com ele que fico em paz!  E não esqueçam: o amor é livre! Fui!

Joaquim:

– Cade o João?

Maria:

– O João foi embora.

Lili:

– Assim, sem mais nem menos. Mas como ele pode fazer uma coisa dessas?

Raimundo:

– Que corno, cagão!

Joaquim:

– O João é um covarde para o amor.

Maria:

– Eu acho que amava ele… Mas não sei, nunca convivi.

João:

Acabando o domingo com o Ney…

quem quer ser livre? ou Thor, a liberdade e eu

na rua do pé de acerola mora Thor. de verdade, o cachorro pode chamar-se Poseidon ou Agamemnon, eu não sei. ele é preto e grande e brilhante. mora num espaço 4X3. vive entre sua água, comida e fezes. amanhece e anoitece aos pés do portão, deitado, sempre. é a face da tristeza, de um espírito há muito aprisionado. se lhe falam, nem se mexe. não tem gosto pela vida. certa vez, passava pela rua e vi que o portão vermelho que o prende estava aberto. de início tive medo de passar por perto, o cachorro é grande, já falei. mas não desviei, pensei: deve ter fugido, eu fugiria! mas não, para meu espanto o cão estava lá, deitado, apático, aos pés do portão aberto. de tão triste parece não ter forças para sair, para fugir, para ser livre. sentei por perto e ficamos em silêncio. nos olhamos, cada um de um lado do portão, abertos. pensei em sacudi-lo, em gritar: vai, anda, foge!! corre com o vento, língua e rabo balançando! pula! sente os cheiros do mundo! mas não consegui dizer nada, permaneci quieta, calada, encarando-o. até que ele me falou sobre mentiras, mágoas, sonhos desfeitos, inadequação. me disse coisas sobre crueldade e rejeição. então, calou-se. nos olhamos através do passar do tempo. minha barriga roncou, precisei ir. volto sempre para vê-lo, não sei por que, mas volto. infelizmente, ele nunca mais conversou comigo, nem me olha. acredito que esqueceu como viver ou nunca aprendeu, não sei. queria que ele gostasse de mim, que pudéssemos rir algumas vezes. queria ajudá-lo a andar bem pelo mundo. mas, logo eu, que ando presa nos horizontes diários, que vivo presa entre os muros, entre os aeroportos, entre os amores, entre as flores e os rios. eu, prisioneira de pretéritos, sei o quê? mesmo assim, todos os dias vou ao seu encontro. penso que um dia, talvez, nossos olhares se cruzem de novo e, em silêncio, despreparados e vulneráveis, tomemos para nós as nossas vidas.

ei, psiu! sabe …

ei, psiu! sabe aquele lugar que o tempo inteiro é um deitar na rede?

sei! é lá onde o corpo todo parece barulho de mar.

dona esperança…

dona esperança mora numa favela do real parque. cata latas. seus filhos pouco dormem, pouco comem. seu marido fugiu, mas não escapou da miséria. hoje é dia dela catar na noite. lua crescente, os jovens vão mais à balada. hoje é dia de catar no morumbi. os seguranças afastam, tem hora certa pra catar. felipinho morava na mesma favela que dona esperança. “se isso acontecer de novo, você tá fora!” felipinho quase perdeu o emprego porque deixou dona esperança catar na frente dos clientes. “emprego tá difícil, ele é um bom garoto, mas parece que o dinheiro lhe subiu a cabeça”. trabalhar de noite é mais calmo e o ar é mais limpo. tudo é mais escuro e invisível. “queria um dia subir naquele prédio alto. todos os dias de manhã os pássaros despertam o vôo bem lá de cima”, dona esperança da calçada olhava sempre o mesmo prédio. fim da balada, algumas latas no chão, lixos empilhados na calçada. separa, cata, arrasta, carrega, vende. de volta, come pão e bebe café preto. a vista já é clara do sol subindo. dona esperança vai até a sua porta e, como de costume, vê o prédio de sempre tocando o mais alto do céu. os pássaros acostumados a levantar vôo sob seu olhar, aos poucos, começam a pular e a cantar e tudo recomeça. “bom dia, dona esperança”, despertando, dona esperança responde com um sorriso, “bom dia, felipinho”.

a verdade obscurecida

me falta o lítio e na chia tem selênio

xenu habita sozinho um planeta distante, perdido no universo

R10 para queda de cabelo

acabou-se o crédito e a paciência fugiu com outro

#ocupeminhacabeça

#ocupeminhacama

de longe vou de óculos

falência decretada

renascimento do silêncio

Dhyana Dhyana

refúgio e gratidão

Um dia comum

Um dia comum

Uma rua deserta. Casas velhas. Algumas árvores secas. Uma pedra. Sol a pino.

Surgiram mãe e filho de mãos dadas no horizonte. Ela paciente. Ele decobrindo o mundo. Pareciam felizes.

A mãe mais velha do que era e menos feliz do que se mostrava, não se dava conta disso, pois parou de fazer perguntas há muito tempo.

O filho tinha seis anos e sem dúvidas era feliz. Exergava na mãe uma rainha linda e sábia. Ela simplesmente sabia de tudo. De tudo!

Filho: Mãe quem mora nessa rua?

Mãe: Um monte de gente.

Filho: E o que eles estão fazendo agora?

Mãe: Devem estar descansando.

Filho: Eles tem filhos?

Mãe: Tem, todo mundo tem filhos.

Filho: Por quê?

Mãe: Por que os filhos são uma bênção.

Filho: Mãe o que é benção?

Mãe: É como essa árvore.

Filho: Mas o que é benção?

Mãe: É um presente.

Filho: Eu sou um presente?

Mãe: É, meu amor.

Filho: E você é um presente da vovó e do vovô?

Mãe: Isso mesmo.

Filho: Mãe, quem fez a pedra?

[Silêncio]

Mãe: Foi Deus meu filho.

[Silêncio]

Mas como foi que ele fez isso?

[Silêncio  grande]

Seguiram em silêncio.

Pollyanna Monteiro

A verdade é aquilo que está no seu horizonte

“Carro

Carro

Ônibus

Mamãe

Parede

Caçapete

Carro outro

Moto grande

Carro de corrida

Caminhão de lixo

Puta ki pariu Puta ki pariu.”

Piero, dois anos, observa o mundo.

 

Pollyanna Monteiro

Devaneios de um viajante

nem o poço

nem o céu

tem fundo

Amor contido vi…

Amor contido vira pânico

Lugar incomodo, a amorosidade é divindade

Tracei no corpo linhas com diamantes

Eu desnudando inutilmente o ontem

Mudanças sem adjetivações

Por favor, não ultrapasse!

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