Escrito inútil para a humanidade – parte II

A vida é pra ser vivida e não planejada. Frase de efeito que já não causa nenhum efeito de tão clichê. Repetição pode ser sinal de sabedoria, de apropriação, mas pode ser prova de uma interessante característica humana, a zumbização. A vontade de domar a vida e vivê-la com um controle remoto na mão é forte demais. Nos escapa a compreensão do existir AGORA, sem garantia de futuro, sem nenhuma garantia de qual melhor estrada seguir. Não sei, mas será que assinei algum contrato para morrer aos 80? Eu recebi alguma missão para cumprir até os 33? Eu estou aqui por algum motivo? O que de tão importante e grandioso me espera?

“Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.”
Antonio Machado

Não há nada de grandioso, de acalentador, de pleno, me aguardando. Existe um NADA me esperando. O onipotente é deslocado para o hoje, tem toda a força e a potência no agora, mas amanhã…
Com o NADA a vista, não existe mais o adiamento por uma vida diferente, com mais felicidade, com mais paz e realizações, se não for agora, não é, será (?).
Agora a vida é triste? Ok. Agora a vida é alegre e leve? Ok. Continuamos a tomar banho, a ir ao trabalho, a estudar, a rir, a chorar, a comprar o pão. Com alegria ou com tristeza como companhia, continuamos indo e fazendo o que podemos, o que dá, o que conseguimos e nos permitimos. Com um bom bocado de dose de realidade ao lado, sabemos que os ciclos fazem parte da vida e que o hoje é do hoje. E viver é perder. Digo sem medo de parecer pessimista.

“Nosotros tenemos la alegría de nuestros errores, tropezones que muestran la pasión de andar y el amor al camino, tenemos la alegría de nuestras derrotas porque la lucha por la justicia y la belleza valen la pena también cuando se pierde.”
Eduardo Galeano

No amor (sempre ele!), existem ruelas de alegria, grandes percursos de felicidade. O amor tem becos para os infelizes. Os futuros caminhantes nas largas avenidas dos apaixonados. No caminhar do amor tudo é bonito, até o ir e o deixar ir. Porque, acredito, a vida nos leva para onde precisamos. Shakespeare escreveu:
“Um grande amor nos sustos se confirma.”

Um grande amor, quando se perde, nos dá um grande susto. Será a vida cobrando mudanças, disposição?
É a vida jogando a gente para o presente.

E Shakespeare segue: “Existe uma previdência especial até na queda de um pássaro. Se é agora, não vai ser depois; se não for depois, será agora; se não for agora, será qualquer hora. Estar preparado é tudo.”

Não há com o que se preocupar, mas, sim, se preparar. Se eu puder vou entender agora, se eu não conseguir, será depois, e daí, este é um tempo que não me pertence. Só o hoje com suas coincidências, “previdências especiais”, consequências e/ou destino, é o real e verdadeiro tempo de ser. Como canta Gil:

Sabe, gente.
Eu sei que no fundo o problema é só da gente.
E só do coração dizer não, quando a mente.
Tenta nos levar pra casa do sofrer.
E quando escutar um samba-canção.
Assim como: “Eu preciso aprender a ser só”.
Reagir e ouvir o coração responder:
“Eu preciso aprender a só ser.”

=)
Bom carnaval!

Até!

Vivi Bezerra

Escrito inútil para a humanidade

“O homem se tornou possuidor de um conhecimento científico infinitamente superior a todo o conhecimento acumulado pelo passado. Revelou-se a fragilidade da educação: os saberes e a ciência não produzem nem sabedoria nem bondade.”

Dá dó de pensar que o Rubem Alves acertou em cheio.

Acredito que em detrimento da bondade e da sabedoria, ganhamos muitas tecnologias, novas formas de viver com mais conforto, de prolongar a vida, de comer em restaurantes finos, vestir tecidos maravilhosos, super gostosos. Em detrimento de agir com honradez e respeito, ganhamos nossos seguidores, nossas granas, nossos poderes para nos ancorar. Em detrimento de uma consciência plena e em paz, asseguramos inúmeras conquistas, subjugamos países, espalhamos pelo mundo nossa cultura, nosso futebol, nossa mulata, nosso samba, nossa cachaça, nosso jeitinho. Em detrimento de toda esta potência de criatividade, construímos imagens pobres, bobas, descartamos nossos traços mais marcantes, expomos nossas posses, empacotamo-nos. Em detrimento do puro e simples erro, criamos uma teia de mentiras, subterfúgios, arrogâncias, invencionices, malandragens. Em detrimento do deixar doer, temos o jogo de futebol, o sexo, o video game, a bebidinha, o novo santo, o remédio.

Rubem Alves ainda cita Camus: “Esperança é quando sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração.”

Em detrimento da esperança, nos agarramos ao conforto material, nos protegemos na ignorância e lutamos pelo direito de permanecermos inertes. Em detrimento do que nos faz borbulhar, arrotamos modernices, alimentamos auto boicotes, fugimos de profundezas, de laços, de palavras, da velhice, da intensidade, do misterioso.

No entanto, somos tão corajosos e fortes  por estarmos aqui. Tanta coisa já se foi, tanto já mudou, e nós estamos aqui. Belos e feios. Com os danos, os prejuízos, as loucuras, o tédio, a ansiedade, a busca, a fatalidade, os retornos, a revolta, a partilha, as curvas, o desdém, o artifício, as crenças, as heranças, as aventuras, as incompletudes, a liberdade. A Monja Coen tem um lindo texto que começa assim:

Chegamos aqui.
Entre mortos, mortas,
feridos e feridas,
chegamos aqui.
Houve tsunamis,
terremotos, guerras, acidentes, vulcões,
erupções, ventos, ciclones. Muitas
pessoas foram levadas, arrastadas,
engolidas, desaparecidas.
Nós ficamos.
Estamos aqui.
Continuamos a caminhada.
Com tropeços, com feridas, mancando e
nos arrastando – chegamos aqui.
Há os mais fortes e destemidos, que
saltaram os obstáculos, mas até quando
saltarão?
Transitoriedade.
Velhice, doença e morte.

Tudo está acontecendo como está e não há detrimento de nada, só se trata da vida como ela é.
Mais um texto inútil para este domingo tão repleto de desvelações.

Beijos e sorte!

Até!

Vivi Bezerra

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