Isto é meu Brasil

Ficou difícil ignorar os últimos acontecimentos violentos que aconteceram no Brasil. Para citar só alguns e tentar entender a que pé estamos neste país em relação aos direitos humanos, é que escrevo este post.
Um suposto caso de estupro no BBB, programa da TV Globo, fez todo o país discutir o comportamento de homens e mulheres. O que é um estupro? Qualquer ato libidinoso contra a vontade da vítima, usando ameaças ou agressões. Acontece, em alguns casos, da vítima estar num estado vulnerável, que não pode/consegue se defender ou manifestar sua vontade, daí qualquer ato de violação física constitui o crime. Muita gente não sabia disso, enquadravam o estupro como um crime onde houve penetração forçada, contudo estupro é mais que isso.  Este caso me ajudou a refletir, uma vez mais, sobre os papéis sociais dos gêneros na nossa sociedade.
Me parece que assim se estabelecem os papéis: os homens tem uma necessidade de sexo, se provocados, vão lá e “comparecem”, ai daquele que não fizer isso, será xingado por muitos de viado! Homem não pode manifestar suas dúvidas, chorar, dizer “não, eu não quero”, porque seu papel é o do macho-garanhão, dominador da situação. Conheço poucos homens que dizem: “sim, eu tenho dúvidas”, refiro-me a dúvida de ser este tipo de homem produzido artificialmente que não consegue controlar seu pênis, nem, muito menos, encarar sua fragilidade. Então, mais fácil é colocarmos as mulheres no papel da Virgem Maria ou no da Puta, onde seus corpos estão a disposição (até clamam!) por um pau. Porque mulher sem homem é mal amada, é frustrada, é raivosa, é feia. Porque uma mulher gostosa quer mais é ser comida, na buceta, no cú, quer é chupar uma rola. Nestes papéis as mulheres acabam sendo culpadas pelo estupro que sofreram, porque provocam o homem, que não consegue segurar o desejo, e, simplesmente,  faz sexo! O consentimento da mulher é um mero detalhe. Que fique claro: homens e mulheres podem provocar o quanto quiserem, podem bancar um jogo de sedução, podem se agarrar a noite inteira, mas se um diz não, não deve acontecer mais nada. A história para ali por mais que alguém saia frustrado(a). Muitas pessoas falaram do programa e da emissora. Bom, todos sabemos que o programa é de péssimo gosto, não tem preocupação alguma em respeitar as pessoas que estão na casa, os seus diversos comportamentos e a pluralidade em se viver. O foco do BBB é a intriga e o sexo. Da Globo não esperemos nada, mas da justiça… Se não podemos mais contar com a justiça brasileira estamos ferrados. O caso precisa ser investigado e, se aconteceu um crime, todos os responsáveis devem ser punidos, não é óbvio?
Bom, continuando com minha ingenuidade ou esperança em relação a justiça, não posso deixar de  escrever sobre a violência nas ruas do Recife. Batalhão de Choque joga bombas, usa spray de pimenta, balas de borracha em estudantes e outros manifestantes, pessoas que estão exercendo um direito de se manifestar (é óbvio, né?!), no caso contra o aumento no valor das passagens de ônibus. Quem anda de ônibus em Recife sabe que o serviço não é de boa qualidade, a frota não é suficiente, os itinerários não são democráticos, não atendem a alguns locais da cidade. Direito de se manifestar contrário a propostas ou decisões faz bem para uma sociedade onde convivem uma porção de gente diferente. Infelizmente, esta convivência tem se mostrado bastante verticalizada, os poderosos políticos e os ricos conseguem na grande maioria dos casos fazer prevalecer suas vontades, seus projetos, suas ideologias. Obviamente há pessoas que participam de um protesto e fazem uso da agressão, eu sei, mas não são a maioria, assim como quero acreditar que não são a maioria dos policiais que usam o cacetete, as bombas de efeito moral (este nome é ridículo), as armas…

Tentando não parecer tão ingênua, e assim me tornar ridícula, quem esquecerá a ação da PM de SP contra os moradores do Pinheirinho? O que sei é que o terreno pertence a uma das empresas do Naji Nahas, e estava há trinta anos sem uso. Desde 2004, 1.600 famílias viviam no local. Sim, invadiram o terreno e construiram suas casas. Pinheirinho era um bairro com padaria, igreja, crianças, idosos, homens e mulheres que trabalham como você, como eu. Mas Pinheirinho tinha um defeito: tinha pobre, e quem quer conviver com pobre por perto? Alguns agem da forma mais escrota possível para que seu imóvel fique mais valorizado, para que a pessoas que tem menos bens sumam das suas vistas. Ah, mas dizem que em Pinheirinho tem traficante, ok! Pode até ser. Mas tem traficante em quase todo bairro brasileiro, é só procurar e você vai encontrar alguém bem próximo para abastecer o mercado. O governo de SP em conjunto com a justiça estadual, fez o que quis, desapropriou e agora as pessoas dormem em tendas, na igreja, em quadras esportivas. O governo Federal, a Secretaria de Direitos Humanos, a justiça em suas maiores instâncias, são co-responsáveis por esta barbaridade, pela violação do mais básico direito a habitação. Fica a sensação que nada é garantido. Um homem com tantos processos por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, consegue fazer e desfazer à custa do estado, à custa do nosso dinheiro.
É pouco? Vem mais por aí, uma guerra virtual por direitos autorais, propriedade intelectual, compartilhamento na rede.
2012 começando com vários acontecimentos para repensarmos como construímos uma sociedade que, para quase tudo, faz uso da violência, desqualifica, pobres, negros, mulheres, que exige cidadãos enquadrados e obedientes.
Mas tem muita gente distribuindo flores, denunciando como pode, enfrentando gigantes.
Só não deixemos que todas estas injustiças sejam esquecidas assim que o próximo evento surgir, a próxima fofoca se espalhar ou o carnaval começar. Temos as urnas este ano e temos todos os dias para honrar a quem luta por justiça.

Até!

Vivi Bezerra

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