Universo.

Hoje, os mundos nas sementes de mostarda.

Universo.

2,7 anos

levantei e resolvi tentar

e assim foi por mil dias

mil dias passaram-se

fracassei no objetivo, desviei da tentativa

agora, concentrada, vai dar!

levantei hoje e resolvi tentar deixar tudo para trás.

alisando rugas

de outro modo verter

vergar sem dignidade

o que sei de dignidade?

lonjuras…

inflar, torpor na cabeça

rasgar

destruir

arranhar

ir ao chão, soluço

secar toda imagem

cansar de toda imagem

ruir

se unir com o medo

escurecer com a noite

deteriorar

o que busco é o tive

diz-me o que preciso e leve o meu amor.

aqui há promoção de amor

apenas algumas palavrinhas queridas e você pode levar um amor

amor de linha cromada, com filtro embutido, 150 cavalos

amor em 15, 30 ou 60 segundos

só algumas palavrinhas, queridas palavrinhas

mas se beber, não fale

fale somente o que eu quero ouvir, fale da minha salvação, da esperança, das mãos dadas até o fim

fale do vento, do biquíni vermelho, do som do mar

fale que isso vai passar, que tudo vai melhorar, fale que restará o amadurecimento

fale mesmo que seja mentira

me engane com as palavras, me engane com meu consentimento

fale sobre o porvir da vida, fale sobre o ciclo lunar

fale do vazio, para o vazio, no vazio

fale uma mentira linda que salve o meu dia

me diga sobre o tempo a nos melhorar, sobre a piedade a nos redimir

não esqueça, preciso que você fale de meus fracassos, meus insucessos frutíferos, meus piores erros bobos

fale-me de quem eu era, minta sobre mim, invente meu passado

um passado inventado que seja, ao menos assim eu me lembraria…

não esqueça que preciso ouvir sobre meus feitos heróicos fugazes, sobre minhas ínfimas e pueris lutas grandiosas

quando me chamar não esqueça de me atualizar sobre este exato momento

a decadência sexy e o desânimo jovial deste presente momento

me fale sobre a beleza do já saber morto

continue a falar o que quero ouvir

e meu amor será sempre teu,

V.

escuro da densidade

escuro uterino

escuro do respiro

escuro das palavras

escuro dos conceitos

escuro das urgências

escuro dos quereres

escuro dos desenlaços

escuro das chamas

escuro dos mergulhos

escuro dos sentidos

escuro do retorno

escuro dos olhos

escuro do vazio

escuro de todo

 

Sobre o “Novo Recife”

Ê, olha o empreendimento, aê!
Dinheiro – check – passa!
E minha vó dizia: quem se mistura aos porcos, farelo come!

Soletrando
MD – ARA – GL – QG – CÚ – GOVPE – PCR – TIC – TAC

Quero ver é meu Recife virar RIO MAR!
DUCA DUCA DUCAralho!
Caralho e buceta e bunda só nos entornos!
Cala boca e vai passar óleo de peroba!

Paulinho, ninguém voltará depressa, pois a noite parece não ter fim. A noite só tende a escurecer, é da natureza da noite.
Aqui no chão há vida! Morrendo, em parte, é certo. Vidas seculares e miseráveis.

Embaixo – o rio e o mar, em cima – o firmamento paisagístico empresarial residencial turistical.
Convivei e proclamai:
Aqui construirei minha casa-escritório-parque-pier.
Horrendos, saiam do caminho que quero ir ao Rio Mar!
O novo Recife já começou caduco em sua ostentação.

Soletrando
D-i-n-h-e-i-r-o

Homens-caranguejos X homens-cânceres

Procuro, procuro e não acho a humanidade. Procuro, procuro e acho a humanidade.


Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.

Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).

O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.

Ele sabia também
dos grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.

E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.

Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.

Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).

Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.

Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.

Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.

Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).

Trecho de O cão sem plumas – João Cabral

Se eu pudesse trincar a terra toda

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se,
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja…

 

Alberto Caeiro em “O Guardador de Rebanhos – Poema XXI” – Fernando Pessoa

dominó de met(t)as

pelo preço a pagar dá pra julgar

nenhuma análise me entrega a metta

nem a meta de parecer

a meta de aparecer

a meta de perecer

pelo preço a pagar não dá pra julgar

a metta por atingir

a meta por deixar ir

de novo ao alcance

pega, é ali

onde?

pelo preço e seu invento

na metta existe mais além, pura e simplesmente

meta, para! volta!

dá a volta por si, mas e se cair?

deixa parecer inventado, de ilusões também se amparam quedas

deixa pertencer

deixa

Escrito inútil para a humanidade – parte II

A vida é pra ser vivida e não planejada. Frase de efeito que já não causa nenhum efeito de tão clichê. Repetição pode ser sinal de sabedoria, de apropriação, mas pode ser prova de uma interessante característica humana, a zumbização. A vontade de domar a vida e vivê-la com um controle remoto na mão é forte demais. Nos escapa a compreensão do existir AGORA, sem garantia de futuro, sem nenhuma garantia de qual melhor estrada seguir. Não sei, mas será que assinei algum contrato para morrer aos 80? Eu recebi alguma missão para cumprir até os 33? Eu estou aqui por algum motivo? O que de tão importante e grandioso me espera?

“Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.”
Antonio Machado

Não há nada de grandioso, de acalentador, de pleno, me aguardando. Existe um NADA me esperando. O onipotente é deslocado para o hoje, tem toda a força e a potência no agora, mas amanhã…
Com o NADA a vista, não existe mais o adiamento por uma vida diferente, com mais felicidade, com mais paz e realizações, se não for agora, não é, será (?).
Agora a vida é triste? Ok. Agora a vida é alegre e leve? Ok. Continuamos a tomar banho, a ir ao trabalho, a estudar, a rir, a chorar, a comprar o pão. Com alegria ou com tristeza como companhia, continuamos indo e fazendo o que podemos, o que dá, o que conseguimos e nos permitimos. Com um bom bocado de dose de realidade ao lado, sabemos que os ciclos fazem parte da vida e que o hoje é do hoje. E viver é perder. Digo sem medo de parecer pessimista.

“Nosotros tenemos la alegría de nuestros errores, tropezones que muestran la pasión de andar y el amor al camino, tenemos la alegría de nuestras derrotas porque la lucha por la justicia y la belleza valen la pena también cuando se pierde.”
Eduardo Galeano

No amor (sempre ele!), existem ruelas de alegria, grandes percursos de felicidade. O amor tem becos para os infelizes. Os futuros caminhantes nas largas avenidas dos apaixonados. No caminhar do amor tudo é bonito, até o ir e o deixar ir. Porque, acredito, a vida nos leva para onde precisamos. Shakespeare escreveu:
“Um grande amor nos sustos se confirma.”

Um grande amor, quando se perde, nos dá um grande susto. Será a vida cobrando mudanças, disposição?
É a vida jogando a gente para o presente.

E Shakespeare segue: “Existe uma previdência especial até na queda de um pássaro. Se é agora, não vai ser depois; se não for depois, será agora; se não for agora, será qualquer hora. Estar preparado é tudo.”

Não há com o que se preocupar, mas, sim, se preparar. Se eu puder vou entender agora, se eu não conseguir, será depois, e daí, este é um tempo que não me pertence. Só o hoje com suas coincidências, “previdências especiais”, consequências e/ou destino, é o real e verdadeiro tempo de ser. Como canta Gil:

Sabe, gente.
Eu sei que no fundo o problema é só da gente.
E só do coração dizer não, quando a mente.
Tenta nos levar pra casa do sofrer.
E quando escutar um samba-canção.
Assim como: “Eu preciso aprender a ser só”.
Reagir e ouvir o coração responder:
“Eu preciso aprender a só ser.”

=)
Bom carnaval!

Até!

Vivi Bezerra

Escrito inútil para a humanidade

“O homem se tornou possuidor de um conhecimento científico infinitamente superior a todo o conhecimento acumulado pelo passado. Revelou-se a fragilidade da educação: os saberes e a ciência não produzem nem sabedoria nem bondade.”

Dá dó de pensar que o Rubem Alves acertou em cheio.

Acredito que em detrimento da bondade e da sabedoria, ganhamos muitas tecnologias, novas formas de viver com mais conforto, de prolongar a vida, de comer em restaurantes finos, vestir tecidos maravilhosos, super gostosos. Em detrimento de agir com honradez e respeito, ganhamos nossos seguidores, nossas granas, nossos poderes para nos ancorar. Em detrimento de uma consciência plena e em paz, asseguramos inúmeras conquistas, subjugamos países, espalhamos pelo mundo nossa cultura, nosso futebol, nossa mulata, nosso samba, nossa cachaça, nosso jeitinho. Em detrimento de toda esta potência de criatividade, construímos imagens pobres, bobas, descartamos nossos traços mais marcantes, expomos nossas posses, empacotamo-nos. Em detrimento do puro e simples erro, criamos uma teia de mentiras, subterfúgios, arrogâncias, invencionices, malandragens. Em detrimento do deixar doer, temos o jogo de futebol, o sexo, o video game, a bebidinha, o novo santo, o remédio.

Rubem Alves ainda cita Camus: “Esperança é quando sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração.”

Em detrimento da esperança, nos agarramos ao conforto material, nos protegemos na ignorância e lutamos pelo direito de permanecermos inertes. Em detrimento do que nos faz borbulhar, arrotamos modernices, alimentamos auto boicotes, fugimos de profundezas, de laços, de palavras, da velhice, da intensidade, do misterioso.

No entanto, somos tão corajosos e fortes  por estarmos aqui. Tanta coisa já se foi, tanto já mudou, e nós estamos aqui. Belos e feios. Com os danos, os prejuízos, as loucuras, o tédio, a ansiedade, a busca, a fatalidade, os retornos, a revolta, a partilha, as curvas, o desdém, o artifício, as crenças, as heranças, as aventuras, as incompletudes, a liberdade. A Monja Coen tem um lindo texto que começa assim:

Chegamos aqui.
Entre mortos, mortas,
feridos e feridas,
chegamos aqui.
Houve tsunamis,
terremotos, guerras, acidentes, vulcões,
erupções, ventos, ciclones. Muitas
pessoas foram levadas, arrastadas,
engolidas, desaparecidas.
Nós ficamos.
Estamos aqui.
Continuamos a caminhada.
Com tropeços, com feridas, mancando e
nos arrastando – chegamos aqui.
Há os mais fortes e destemidos, que
saltaram os obstáculos, mas até quando
saltarão?
Transitoriedade.
Velhice, doença e morte.

Tudo está acontecendo como está e não há detrimento de nada, só se trata da vida como ela é.
Mais um texto inútil para este domingo tão repleto de desvelações.

Beijos e sorte!

Até!

Vivi Bezerra

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